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A pensão de alimentos é um custo partilhado, não uma fatia de um salário

Publicado a 08/04/2026 · 13 min de leitura · Calculadoras financeiras

Camille Laurent

Camille LaurentRedatora de Finanças na OneKitly

Fiscalidade · Finanças pessoais

Verificado a partir de 7 fontes

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Em resumo

O modelo norte-americano de partilha de rendimentos não pergunta quanto deve pagar um progenitor. Pergunta quanto os dois juntos teriam gasto com os filhos, reparte esse valor pelos rendimentos e ajusta-o pelo tempo de convivência. Portugal parte de outro sítio: não há fórmula legal. O artigo 2004.º do Código Civil manda que os alimentos sejam proporcionados aos meios de quem os presta e à necessidade de quem os recebe, e o artigo 1905.º manda fixar a prestação no acordo ou na decisão que regula o exercício das responsabilidades parentais. O que existe de quantificado é a rede de segurança: o Fundo de Garantia de Alimentos Devidos a Menores, criado pela Lei n.º 75/98 e regulado pelo Decreto-Lei n.º 164/99, paga em substituição do devedor faltoso, sujeito a um teto por criança fixado por referência ao Indexante dos Apoios Sociais e a uma condição de recursos do agregado medida na mesma unidade. Ou seja: o valor da pensão sai de provar duas coisas — o que o filho custa e o que cada progenitor pode — e o Estado só garante um mínimo indexado quando o devedor falha. Confirme o IAS em vigor antes de usar qualquer número.

Em Portugal não há fórmula: o artigo 2004.º do Código Civil manda proporcionar os alimentos aos meios de quem os presta e à necessidade de quem os recebe, e o Fundo de Garantia garante um mínimo indexado ao IAS quando o devedor falha.

A pergunta a que a fórmula responde

Quase toda a discussão sobre pensão de alimentos é, na verdade, uma discussão sobre o que está a ser medido. O modelo de partilha de rendimentos mede o custo dos filhos e depois reparte-o; um modelo de percentagem sobre o devedor mede a sua capacidade e tira-lhe uma fatia; a tabela alemã mede a necessidade do filho e deixa ao rendimento apenas a escolha de uma linha. São três perguntas diferentes, e dão números diferentes para a mesma família: por isso um montante generoso num parece irrisório noutro. Antes de discutir o número, descubra que pergunta faz o seu sistema, porque os argumentos que movem a resposta não são os mesmos.

A resposta por partilha de rendimentos tem uma propriedade que vale a pena perceber mesmo onde não se aplica: não é linear no rendimento. No barema do Michigan a obrigação conjunta para dois filhos vale 38,10 % do rendimento combinado no primeiro degrau e 22,69 % no último, com uma taxa marginal que cai de 37,92 % para 16,16 % à medida que o rendimento sobe. Uma família com o dobro do rendimento não gasta o dobro com os filhos, e o barema foi construído sobre inquéritos à despesa que o dizem. É a mesma ideia por trás das economias de escala por número de filhos: o segundo custa menos do que o primeiro.

As dormidas são dinheiro, e o expoente diz quanto

O ajuste pelo tempo de convivência do Michigan não é um crédito linear. Pondera a obrigação base de cada progenitor pelas dormidas do outro elevadas a 2,5, o que torna muito pequeno o crédito das primeiras noites extra e muito grande o das situações próximas da igualdade. Em Portugal o efeito existe mas não está tarifado: a residência alternada não elimina por si só a pensão, porque se os rendimentos forem muito diferentes a proporcionalidade do artigo 2004.º continua a exigir uma compensação. O que muda com a repartição do tempo é que despesas cada um paga diretamente e quais se partilham, e essa repartição deve ficar escrita no acordo com nomes e percentagens, não deixada em «despesas correntes».

A lição prática sobrevive à aritmética. Em qualquer sistema, mudar o regime de convivência é mudar o dinheiro, e as duas negociações são a mesma. Combinar um calendário sem lhe pôr preço é acabar com uma decisão que já não corresponde à vida que se leva. Se o seu sistema tarifa o tempo por degraus e não por uma curva, localize onde está o degrau; se o tarifa por uma curva, pergunte à calculadora quanto vale mais uma noite de quinze em quinze dias antes de a ceder ou de a exigir.

Os acréscimos são onde as discussões acontecem de facto

A base cobre os custos correntes de um filho: alimentação, habitação, vestuário, transportes do dia a dia. Não cobre creche, seguro de saúde nem despesas médicas extraordinárias, e no modelo de partilha de rendimentos cada uma dessas rubricas acrescenta-se à parte e reparte-se pela quota de rendimento, não a meias. Em Portugal a lógica equivalente é a das despesas extraordinárias: a pensão cobre o corrente, e o pontual e importante — colégio, ortodontia, campo de férias, carta de condução — reparte-se ao lado, segundo uma chave que o acordo ou a sentença tem de nomear. Um acordo que diz «as despesas extraordinárias serão partilhadas» sem dizer em que proporção nem quem decide fazê-las fabrica o litígio seguinte.

Esconde-se aqui um segundo ponto estrutural. O abono de família, onde existe, não é um extra que se soma: imputa-se à necessidade do filho antes de alguém pagar o que quer que seja. O direito alemão é o exemplo mais nítido — o § 1612b do BGB dispõe que o abono que cabe ao filho reduz a sua necessidade em dinheiro, por metade quando um progenitor cumpre o seu dever cuidando dele, e por inteiro nos restantes casos. Com 259 euros de abono, a necessidade tabelar de 670 e 784 euros do exemplo torna-se um montante a pagar de 540,50 e 654,50. Comparar números de dois países sem verificar se as prestações familiares já foram descontadas é comparar duas grandezas diferentes.

O piso, e o que acontece abaixo dele

Todo o sistema tem uma regra para os progenitores que não podem pagar. A do Michigan é explícita: quem ganha até 1 255,00 dólares por mês deve 10 % do rendimento e mais nada, e entre esse limiar e o ponto em que a fórmula comum daria menos há uma equação de transição que faz subir a obrigação entre 50 e 70 cêntimos por cada dólar adicional consoante o número de filhos. Em Portugal o equivalente é a proporcionalidade do artigo 2004.º somada ao Fundo de Garantia: quando o devedor não paga e o agregado cumpre a condição de recursos, o Estado paga em substituição, até um teto por criança expresso em unidades do IAS. É a diferença entre um piso na fórmula e um piso no pagamento.

Abaixo do piso, a observação honesta é que nenhuma fórmula fabrica dinheiro que não existe, e que uma obrigação nominal impagável faz mais estragos do que uma realista. Acumula atrasos, desencadeia execução e pode acabar em penhoras que comprometem a própria capacidade de pagar. Se o seu processo está perto do piso, o trabalho útil é documentar com precisão o rendimento e os encargos incompressíveis, e não discutir o barema, porque não é no barema que a decisão será tomada.

Como preparar um processo para que o número se sustente

Seja qual for o sistema, quatro documentos fazem quase todo o trabalho. Um histórico de doze meses dos rendimentos de cada progenitor, variáveis incluídos, porque uma fórmula alimentada com um bom mês produz uma decisão que sobrevive a doze maus. Um calendário de dormidas tal como se vivem, e não como se decretam, porque é isso que o ajuste mede. Uma lista detalhada dos custos reais do filho — creche, seguro, saúde, escola, atividades — com faturas, porque é isso que transforma um acréscimo numa linha com número. E o detalhe de todas as prestações familiares recebidas, já que os sistemas que as imputam fá-lo-ão mencione-as ou não.

Depois faça o cálculo duas vezes: uma com os factos de hoje e outra com os que espera daqui a dois anos. As decisões são revisíveis em todo o lado, mas rever custa tempo e dinheiro, e a versão que sobrevive costuma ser a que antecipou a mudança óbvia — um filho que entra na escola e sai da creche, um progenitor que volta a tempo inteiro, um escalão etário que sobe. Escrever de antemão a cláusula de revisão no acordo sai mais barato do que litigar depois, e é a coisa mais útil que a calculadora o pode ajudar a redigir.

Seis maneiras de chegar a um número, e o que cada uma mede realmente
SistemaO que a fórmula toma como entradaQuem a publica e com que frequência se move
Estados Unidos — partilha de rendimentos (cerca de 41 estados, aqui o Michigan)Os rendimentos de ambos os progenitores, somados; o número de filhos; as dormidas com cada um; creche, seguro de saúde e despesas médicas extraordinárias, repartidos pela quota de rendimentoCada estado, no seu próprio manual de fórmula, com um suplemento de tabelas revisto no seu próprio ciclo. As tabelas do Michigan são reindexadas com um índice de preços e um limiar de pobreza
França — table de référenceApenas o rendimento do progenitor devedor, menos um mínimo vital; depois uma percentagem por filho que desce com o número de filhos e volta a descer com a amplitude do regime de visitas (reduzido, clássico, alternado)O Ministério da Justiça, no simulador oficial justice.fr. É expressamente indicativa e não vincula ninguém; o mínimo vital segue um piso de prestação social e é revalorizado
Alemanha — Düsseldorfer TabelleO escalão etário do filho e o rendimento líquido ajustado do devedor, que seleciona uma de quinze linhas. A primeira linha é o mínimo legal; as outras valem 105 a 200 % dele. Depois imputa-se o abono, por metade tratando-se de menorO Oberlandesgericht de Düsseldorf, após coordenação com todos os tribunais regionais superiores, em princípio com efeito a 1 de janeiro. A primeira linha é fixada por um regulamento federal no seu próprio ciclo bienal: o piso e os degraus podem mexer-se em datas diferentes
Espanha — proporcionalidade, com tabelas orientadorasO artigo 146.º do Código Civil espanhol: os meios de quem dá e as necessidades de quem recebe, sem nada mais prescritivo. As tabelas orientadoras do CGPJ acrescentavam uma base construída sobre ambos os rendimentos e o número de filhos, corrigida por índices regionais e municipaisO Consejo General del Poder Judicial. À data de redação a sua página indica que a secção está em processo de revisão e atualização e não há informação disponível: não existe, portanto, tabela em vigor para citar, e quem cita uma cita uma versão retirada
Itália — artigo 337.º-ter do Código CivilCinco critérios nomeados: as necessidades atuais do filho, o nível de vida de que gozava com ambos, o tempo com cada um, os recursos económicos de ambos e o valor económico das tarefas domésticas e de cuidado assumidasNinguém publica um barema. Alguns tribunais difundem orientações internas, mas o documento operativo é a sentença, que tem de fundamentar sobre os cinco critérios: por isso a prova da despesa real pesa mais do que qualquer tabela
Portugal — proporcionalidade mais garantia do EstadoO artigo 2004.º do Código Civil: os meios de quem os houver de prestar e a necessidade de quem os houver de receber. O artigo 1905.º põe o valor no acordo ou na decisão sobre responsabilidades parentais, e o seu n.º 2 prolonga-o para além da maioridade enquanto a formação continuarOs tribunais, caso a caso. O que está quantificado é a rede: o Fundo de Garantia de Alimentos Devidos a Menores paga em vez do progenitor faltoso, com teto por criança e condição de recursos, ambos expressos em unidades do Indexante dos Apoios Sociais, que é revalorizado
Calculadora de pensão de alimentos para filhos (modelo de partilha de rendimentos)Aplica o modelo de partilha de rendimentos — o quadro usado pela maioria dos estados dos EUA — com a tabela publicada da Michigan Child Support Formula 2025. Mostra a obrigação conjunta, a parte de cada progenitor, o ajuste pelo tempo de guarda e os acréscimos de creche, seguro de saúde e despesas médicas extraordinárias, linha a linha.Experimentar a ferramenta

Perguntas frequentes

A residência alternada significa que ninguém paga pensão?
Não, e é o mal-entendido mais frequente. O tempo igual elimina a maior parte da transferência mas não toda quando os rendimentos diferem, porque o nível de vida do filho não deveria depender de em que casa está esta semana. O artigo 2004.º continua a exigir proporcionalidade aos meios de cada um, e por isso os tribunais fixam pensões em residência alternada quando há desequilíbrio de rendimentos. O tempo e o dinheiro são duas variáveis distintas, e só uma delas foi igualada.
Que rendimento conta: bruto, líquido ou outra coisa?
Depende do sistema e a diferença é grande. As fórmulas norte-americanas partem de um «líquido» definido que soma todos os rendimentos de todas as fontes e subtrai uma lista concreta de deduções: não é o bruto nem o que se recebe. A tabela francesa usa o rendimento efetivamente recebido. A tabela alemã usa um rendimento líquido ajustado do qual já foram descontadas despesas profissionais e certos encargos antes de se procurar a linha. Em todos os casos a palavra que conta é «definido»: o número sai de uma lista do manual, não de um recibo de vencimento, e errar a base falseia o resultado mais do que aquilo que pensava discutir.
Continua a pagar-se depois de o filho fazer dezoito anos?
Muitas vezes sim, e a maioridade raramente é o interruptor que se espera. Na maioria dos sistemas a obrigação segue a formação e a autonomia, não um aniversário. O artigo 1905.º, n.º 2, do Código Civil português é dos mais claros: a prestação continua depois da maioridade até o jovem completar 25 anos, salvo se a formação terminar antes. A tabela alemã tem uma quarta coluna para os maiores de dezoito e fixa uma necessidade própria para o estudante que já não vive com os pais, hoje 990 euros por mês com até 440 de renda, avisando que não inclui contribuições para o seguro de saúde nem propinas.
Podemos simplesmente combinar um valor entre nós?
Podem combinar, e em todos os sistemas citados o acordo é a via normal e preferida — mas um acordo não homologado nem registado na forma que o vosso direito exige normalmente não é executável, e o inexecutável é exatamente a propriedade que não se quer numa promessa que tem de durar quinze anos. Mais duas cautelas. Primeira: quase todos os sistemas impedem os pais de renunciar ao mínimo devido ao filho, pelo que um acordo muito abaixo do piso pode simplesmente não se aguentar. Segunda: escrevam ao mesmo tempo o mecanismo de revisão — o que acontece se os rendimentos mudarem, se o filho mudar de escola, se o regime de convivência mudar. O processo mais barato é aquele a que o acordo já respondeu.
A calculadora usa um só estado dos EUA. Serve-me de alguma coisa?
Serve como modelo do mecanismo, não como resposta ao seu caso. Escolheu-se o Michigan porque o seu barema é publicado em forma de equações e não de tabela de seiscentas linhas: as quotas de rendimento, o ajuste pelo tempo e a repartição dos acréscimos podem ser implementados exatamente em vez de aproximados, o que torna visíveis as sensibilidades. Use-o para ver quanto vale mais uma dormida, como a obrigação conjunta se achata quando o rendimento sobe, e que peso os acréscimos têm no total. Depois leve essas perguntas, não esses números, ao critério que realmente governa o seu processo.

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Este artigo é explicativo. Mostra como funciona um cálculo e o que muda o resultado; não é aconselhamento financeiro, fiscal, jurídico ou de investimento, nada sabe dos seus rendimentos, da sua sentença, da sua família ou da sua carreira contributiva, e não lhe pode dizer o que assinar nem o que pedir. As regras de concessão de crédito, os critérios de pensões, as propinas, os limites de contribuição e as fórmulas de reforma diferem por país e são revistos quase todos os anos, pelo que cada regra descrita abaixo deve ser confirmada no texto em vigor antes de nela confiar. Cada montante é uma hipótese declarada, não uma previsão nem um orçamento. Introduza os seus próprios números na calculadora e consulte um profissional regulado antes de comprometer dinheiro ou aceitar um acordo.

Fontes

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